Sob pressão

© 2004 Editora Verdes Mares, 21 de Agosto de 2005. Fortaleza, Ceará.

Segundo o Ministério da Saúde, 45 milhões de brasileiros têm pressão alta. O número representa cerca de um quarto da população do Brasil. No Ceará, 30% da população acima de 40 anos sabe que tem a doença e a estatística cresce se considerarmos os que não descobriram ainda. Isso acontece porque a hipertensão arterial é uma inimiga silenciosa que pega muita gente de surpresa por ser assintomática.

Não apresentar sintomas é um problema tanto para a realização do diagnóstico precoce quanto para o tratamento. “Existe uma resistência psicológica muito forte porque o paciente não

Dr. Ricardo Pereira é professor da UFC e cardiologista do Hospital São Mateus

sente nada. Então é muito mais difícil se aceitar doente diante disso”, argumenta o cardiologista do Hospital São Mateus Ricardo Pereira, especialista em hipertensão e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Apesar de raro, algumas pessoas podem sentir sintomas como dor de cabeça, rubor facial, tontura e sensação de mal-estar. A aposentada Ana Gomes, 52, tem pressão alta, uma herança da família. Ela conta que geralmente sabe que está com a pressão elevada quando sente um mal-estar repentino e dores de cabeça.

No entanto, o cardiologista enfatiza que ninguém deve esperar sentir esses sintomas para começar a se preocupar com a pressão arterial. O indicado é, segundo Dr. Ricardo Pereira, fazer, pelo menos, uma aferição da pressão arterial por ano desde a infância. Esse procedimento reduziria o número de casos de pacientes que só descobrem que têm a doença quando estão em estado muito grave.

A ciência ainda não descobriu a causa da hipertensão primária, também conhecida como essencial ou idiopática, que corresponde a cerca de 90% dos casos. Os outros 10% fazem parte da hipertensão secundária que possui uma causa definida. Geralmente, são conseqüências de problemas renais, tumores na glândula supra-renal, estreitamento da artéria aorta e do uso de drogas (como o anticoncepcional).

A população deve estar atenta para um dos principais fatores de risco para o aparecimento da diabetes e hipertensão: a hereditariedade. Além da tendência familiar, os fatores ambientais, como os hábitos alimentares sem qualquer teor nutritivo e rico em sal, a falta de exercícios físicos e a obesidade são fortes indicativos de que a pessoa poderá desenvolver hipertensão.

Para o diagnóstico, é necessário que se faça a medição freqüentemente dos níveis da pressão arterial. Apenas quando ela permanecer alta, sem importar com a hora, o dia ou o tipo de atividade desenvolvida, é preocupante e deve-se ter um controle contínuo. O monitoramento ambulatorial da pressão arterial é o exame que confirma ou não a hipertensão. Para Dr. Ricardo Pereira, a melhor opção para diminuir o número de casos é a realização sistemática de campanhas informativas que alertem a população sobre os riscos causados pela hipertensão. O médico enumera as principais doenças que se desenvolvem quando um hipertenso não regula sua pressão. “Os maiores riscos é a de lesão no rim, causando insuficiência renal e necessidade de diálise, acidente vascular cerebral (AVC), angina e infarto”.

TRATAMENTO – A hipertensão arterial não tem cura. Quando seguido corretamente, o tratamento assegura o controle da pressão arterial, aliando alimentação adequada, exercícios físicos e, nos casos mais graves, medicamentos. De acordo o cardiologista, o primeiro passo é a adequação da dieta alimentar. Nesses casos, é recomendado uma dieta com frutas e verduras ricas em potássio, cálcio e magnésio, a diminuição da ingestão de sal e de carne vermelha, assim como a exclusão de alimentos enlatados.

A redução de peso, em alguns casos, é necessária. O índice de massa corpórea (IMC) deve está menor que 25. Sobre a necessidade de uma atividade física, Dr. Ricardo Pereira recomenda a prática de um exercício aeróbico, a exemplo da caminhada e a natação. E que sempre o paciente seja avaliado por um médico antes de iniciar qualquer modalidade, assim como a drástica redução (ou eliminação por completo) do consumo de álcool e tabagismo.

Para os pacientes com hipertensão severa, cuja pressão arterial é maior que 160 mm Hg por 90 mm Hg, é necessário o uso de medicamentos. Existem quatro tipos de drogas indicada, sendo prescritas de acordo com o peso, idade, sexo e a existência de outras doenças. Segundo o cardiologista, as drogas mais modernas não apresentam efeitos colaterais, assim como as que possuem mais tempo de mercado. Os efeitos mais comuns, embora raros, são inchaço nos pés, rubor facial, tosse e taquicardia.

O tratamento de Ana Gomes é medicamentoso. Recentemente iniciou tratamento para parar de fumar; só que o medicamento prescrito fez aumentar sua pressão. Para manter a pressão sob controle, seu médico prescreveu dois tipos de drogas. “Descobrí a doença logo porque minha família sempre teve casos, embora muitos familiares ainda desconheçam que são portadores de hipertensão”, afirma a paciente.

Hipertensão na gravidez

Um cuidado a mais com a pressão é durante a gravidez. Devido a alteração hormonal e ao ganho de peso, muitas mulheres desenvolvem hipertensão, um risco para a saúde da mulher e do bebê. A professora Ana Maria Arcanjo já está na terceira gestação e se mostra mais atenta para a controle da pressão. Na gravidez anterior, a pressão subiu muito quando chegou ao sétimo mês. “Senti dores de cabeça, formigamento, dormência nas mãos e inchaço nas pernas”, conta.

Ela relembra que engordou cerca de 10 quilos. Por indicação de seu médico, teve que tirar a licença maternidade a partir do oitavo mês para ficar em repouso e seguir uma dieta especial. “Apesar de ter antecipado um pouco o parto para aproveitar a semana em que minha pressão estava normal, tive problemas”.

Desta vez, Ana Maria vem se cuidando desde os primeiros meses. Ela está no sétimo mês e só engordou quatro quilos. No entanto, a pressão já está aumentando um pouco. O cardiologista Ricardo Pereira explica que em alguns casos mais graves é recomendado o tratamento com uma droga específica que não causa nenhum mal ao feto. “É preciso que no pré-natal o médico faça todos os meses a medição da pressão para que o tratamento seja feito o quanto antes”, alerta.

Nutrição

Aumentar a ingestão de potássio pela escolha de alimentos como: feijão, ervilha (que não seja em conserva), vegetais de cor verde-escuro, banana, melão, cenoura, beterraba, tomate, batatinha e laranja. Essa indicação se justifica pelo fato de o potássio exercer efeito anti-hipertensivo e ter a ação protetora contra doenças cardiovasculares.

Preparar todos os alimentos sem sal

Usar temperos naturais à vontade, como limão, alho, cebola, coentro, etc..

Para temperar as saladas, utilize azeite de oliva ou óleo de cânola.

Optar por carnes brancas (peixe e frango).

Procurar substituir o pão comum por pão doce ou bolacha doce. Consumir um pão francês por dia.

Consumir, diariamente, frutas, verduras e legumes.

Preparar alimentos grelhados, assados, refogados ou ensopados; sempre com pouco óleo, evitando ao máximo, frituras.

Prof. Dr. Ricardo Pereira Silva

Professor de Cardiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC)
Mestre pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (ESPM)
Doutor pela Universidade de São Paulo (USP)